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A Arca da Memória
Recolha do Património Oral do Concelho de Pombal
O projecto da recolha do património oral do concelho de Pombal faz parte do Plano Anual de Actividades para a Terceira Idade para 2005, promovido pelo Pelouro de Acção Social, que permitiu dinamizar os lares e as IPSS de uma forma continuada, tendo o projecto sido iniciado em Fevereiro e concluído em Agosto, iniciativa essa que envolveu cerca de 80 pessoas. PrefácioOs trabalhos de recolha e de fixação de composições narrativas e poéticas de transmissão oral moderna - entre os quais se inclui, agora, a Arca da Memória - têm uma larga tradição no nosso país, ao longo da qual foram proporcionando a constituição de um acervo material de enorme valor para o conhecimento da Novelística, do Romanceiro, do Cancioneiro e de outros géneros que, como já afirmavam os primeiros estudiosos oitocentistas, viveram na memória colectiva com maior vigor do que na actualidade. Para se estimar o volume deste pecúlio bibliográfico, basta recordar, entre outras, as obras fundadoras de Almeida Garrett, as monumentais colecções de Teófilo Braga e de Leite de Vasconcelos, as valiosas contribuições de Rodrigues de Azevedo, Adolfo Coelho, Consiglieri Pedroso, Tomás Pires, a pesquisa dos estudiosos que antecederam as últimas décadas do século XX, e os trabalhos realizados a partir desses anos 70 que marcaram uma nova fase na investigação e entre os quais se podem relembrar os de Joanne Purcell, Manuel da Costa Fontes, Pere Ferré e Maria Aliete Galhoz. No entanto, apesar desta exumação e edição sistemática, existem, ainda hoje, certas áreas geográficas que aguardam a atenção mais cuidadosa dos estudiosos, pois ainda não ofereceram composições (ou um número significativo de composições) de determinados géneros tradicionais. Entre elas, encontrava-se, lamentavelmente, o concelho de Pombal que, por exemplo, não constava dos índices geográficos da recente Bibliografia do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna (de Pere Ferré e Cristina Carinhas, publicada em Madrid, em 2000) por não ter dado à imprensa, até essa data, qualquer versão romancística recolhida na região. É, assim, com o maior apreço que abro a Arca da Memória e reconheço, ao compulsar a colecção de saberes pragmáticos, de sentenças moralizadoras, de narrativas e de cantos de diferente género, natureza e funcionalidade, três versões de três romances, uma do tema "Bela Infanta", outra do "Soldado" e outra de "O Lavrador da Arada". Com elas, o concelho é incluído no Romanceiro português e, consequentemente, no próprio universo pan-hispânico do género. Claro que o seu valor regional não carece de afirmação, assim como o das outras espécies coligidas que fazem parte do diversificado património cultural desta região, uma vez que foram recitadas por quem nasceu em Pombal e nele as herdou de um fundo comum local; contudo o seu interesse ultrapassa as fronteiras do concelho na medida em que fazem parte, como dizia, de temas romancísticos com expressão consideravelmente mais alargada e de um género com origens medievais. Relegando para outro local as questões da génese, convido, no entanto, a que se avalie a difusão geográfica destes romances agora presentes nesta obra: o primeiro conta com versões coligidas noutros concelhos nacionais, no Brasil, em Cabo Verde, em Ceilão, na Galiza, na Catalunha, bem como entre os sefarditas da Bósnia; o segundo, com poemas também recolhidos noutras regiões portuguesas, assim como na Galiza, em Castela, na Catalunha, entre os sefarditas e na América de língua espanhola; o último, com várias recitações em quase todo o país, no Brasil, na Galiza e em Castela (Manuel da Costa Fontes, O Romanceiro Português e Brasileiro: Índice Temático e Bibliográfico, Madison, 1997). Perante esta colecção textual (romancística e não só) que define a Arca da Memória e considerando o universo relativamente reduzido de informantes que a tornaram possível, é de supor que exista um maior caudal de composições com igual significado do ponto de vista transregional e/ou local a aguardarem novas prospecções neste concelho. Por isso, esperamos que os seus responsáveis tornem possível a continuidade da exumação da memória colectiva desta região e venham a confirmar estas suspeitas - oferecendo novas "arcas" para o conhecimento da Tradição que tem vindo a merecer um renovado interesse, por parte da crítica, no seio da sociedade da Globalização que aparentemente a extingue. Lisboa, Outubro de 2005
Teresa Araújo |


