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Cuidar da Criação - galinhas, galos, frangos e pintos na tradição popular portuguesa
Este livro (fruto da recolha de informação do seminário de licenciatura de Literatura Tradicional) conta com a participação de Carlos Augusto Ribeiro em "Criações e Voltas de Galinhas" (a representação da 'criação' na arte contemporânea). Galinhas, galos, frangos e pintos em provérbios, adivinhas, anedotas, cantos e contos da tradição popular portuguesa = BAR_contexto('Segundo Carolina Michaelis de Vasconcellos, cuidar: variante de cuidar, pensar, julgar; cuidar em alg. ou alg.c.; estar cuidoso, triste, meditabundo, scismar (cativ\' e sempre cuidarei!, que já per cuidar morrerei). Cuidar-se, julgar, imaginar. Cuidar, parecer, opinião (a meu cuidar, quand\'é meu cuidar, segund\'agora meu cuidar), Glossário do Cancioneiro da Ajuda, vol.I. Lisboa, Imprensa Nacional, 1990, p.23.'); ?>Este trabalho de investigação sobre um vasto ‘corpus’ de textos da tradição popular portuguesa (um campo à partida sem a nobreza da literatura maior e consagrada) visa – brincando com coisas sérias – desconstruir ‘clichés’ instalados no imaginário colectivo contemporâneo relativamente à mulher e à maternidade. Através do estudo da significativamente chamada criação (pintos, frangos, galinhas e galos), recorrentes em textos tradicionais e em inúmeros textos da literatura infanto-juvenil contemporânea, tentamos compreender e contestar estereótipos. Recordemos um dos principais propósitos da Conferência Mundial do Decénio das Nações Unidas sobre a mulher (Copenhagen, Julho 1980): os governos deverão tomar todas as medidas necessárias para “eliminar do material de ensino a todos os níveis, os estereótipos fundados no sexo”. Um guia didáctico publicado pela Unesco em 1986, Non aux stéréotypes! Vaincre le sexisme dans les livres pour enfants et les manuels scolaires= TXT_nota(); ?>, mostra como, por palavras e imagens, são transmitidos de geração em geração modelos desvalorizadores da mulher. Consideramos que, nesta viragem do século, a imagem estereotipada do feminino se disfarça sob outros modos de desvalorização; cremos que o conhecimento aprofundado de um património tradicional (praticamente desconhecido e totalmente ignorado pelo discurso dos media) pode revelar um profundo, senão mesmo íntimo, respeito pelo feminino e pela maternidade, uma prática da partilha, do direito e do dever insuspeitada se não atendermos ao tecido textual colectivo interligando gerações e classes sociais. Referimo-nos essencialmente a dois tipos de estereótipo:
mulher – galinha – cacarejo – estupidez homem – galo – virilidade – dominação
os provérbios, reputados sobreviventes do mundo da tradição popular funcionando como estrutura conservadora, perpetuadora de valores mais anquilosados, o da consagração de dicotomias (macho-fêmea) e de hierarquias (lugares no poleiro). TXT_nota('Non aux stéréotypes! Vaincre le sexisme dans les livres pour enfants et les manuels scolaires. Andrée Michel, UNESCO; Paris, 1986.'); ?>Verificaremos como, ao contrário do provérbio (por alguma razão mais divulgado junto do senso comum), o conto popular (menos transmitido fora do contexto familiar ou escolar) aborda esta comunidade da criação no campo ou na capoeira: a inteligência da visão feminina do mundo (não dicotómica face à masculina), a superioridade do menor e do aparentemente desprotegido face ao poder maior e instalado. O património colectivo do folclore ciclicamente celebrado funciona como um sinal da vingança dos seres sobre os quais a civilidade ou a repressão mais se exercem. Assim, nos diversos carnavais que pontuam um calendário austero irrompem gumes afiados de pequenas ou grandes desforras da natureza. Estas irrupções no baldio dos tempos de relaxamento despistam a regra instituída enquanto organizam o estado das coisas e permitem a manutenção da ordem durante o resto do ano. Veremos como a fala perturbadora da mulher, a chamada alcovitice, quadrilhice, ‘gossip’, ‘cackle’, ‘caquet’ ou cacarejo se instala em lugares reconhecidos (Aqui se hace el periodico, inscrição a giz no muro do largo onde as mulheres conversam), em tempos de exclusão, em domínios desprestigiados porque rebeldes ao poder. Mas essa fala irrompe para rebater a outra, a que sobre ela se impõe. Às vezes mina-a, às vezes mina-se a si própria, às vezes morrem as duas. Fiam-se intrigas, tramam-se planos, desfiam-se segredos, cantam-se histórias, subvertem-se lugares, picam fusos, enredam-se meadas, confia-se nas comadres que alcovitam perversidades. E contam-se sempre contos: a trama da narrativa ao mesmo tempo e no mesmo espaço em que o tecido cresce. *Por alguma razão subsistem alguns textos e alguns géneros: o conto num contexto escolar e lúdico organizado, os provérbios no senso comum. Por alguma razão decaiu o gosto por outros como, por exemplo, as adivinhas e escasseiam estudos sobre esta forma original divinatória (um cosmogónico ovo, conforme proporemos). Por alguma razão entram na academia para estudo sério e reconhecido os contos, textos que escapam à banalização, que não se deixam facilmente reduzir a catálogos e cartografias, lugares de expressão de “conteúdos inconscientes, para os quais a mentalidade colectiva não dispõe de uma linguagem”, nas palavras de Marie-Louise von Franz= TXT_nota(); ?>. Veremos como também não se encaixam em classificações imediatas estes seres da criação tal como em geral os textos da tradição os revelam. O desconhecimento do amplo património textual tradicional facilita a ‘aplainagem’ da visão do mundo, determinando um olhar limitador. Ao lado das recentes descobertas etológicas relativas às capacidades de memória e abstracção dos galináceos= TXT_nota(); ?>, estas manifestações textuais, durante gerações e gerações oralmente transmitidas e sobre as quais escritores contemporâneos fundam os seus textos, por exemplo, “para a infância”, denunciam uma notável apreciação do ser maternal que a galinha representa e irradicam a reputada estupidez a que a ave (logo, a mulher) tem sido comummente associada devido à imposição de modelos impermeáveis e às clivagens propiciadas por apressadas generalizações. Assim, atentaremos na forma como a educação da criança se baseia ainda hoje em modelos de capoeira, no modo como o ovo conta o mundo e os seus mistérios reflectindo também sobre um texto notável para a celebração do multiculturalismo e capacidade de adopção: Os Ovos Misteriosos de Luísa Ducla Soares. *Inúmeros artistas plásticos retomam este lugar-comum da capoeira. Convergência de criações, também a artística? De facto, estes seres chamados em português, de criação percorrem diacronicamente a história quotidiana dos humanos cruzando extractos sociais e etários – em liberdade no campo, cercados pelo galinheiro, apresentados à mesa ou devorados em narrativas. O estudo é, pois, seguido de vasta documentação iconográfica, desde brinquedos ou artefactos da tradição popular internacional a pintura, escultura, fotografia, imagens publicitárias ou projectos conceptuais (por razões de ordem prática, apresentamos aqui apenas algumas dessas inúmeras imagens). TXT_nota('O Feminino nos Contos de Fadas. Petrópolis, Vozes, 2000, p.22.'); TXT_nota('Referimo-nos às teses de René Zayan'); ?> = TXT_titulo (NULL, 'Índice'); ?>Prefácio: José Augusto Mourão Introduzindo... um mundo em menor Primeiro painel: encontro com outros bichos Segundo painel: a brincar? pecking chickens Terceiro painel: a criação na tradição popular a) bicos e bocas: comer e falar b) galinhas e mulheres, mulheres-galinhas? sobreviver com a criação c) fazer ovo d) know how e astúcia da criação e) e os galos... f) um pinto erguendo a voz Concluindo... hipóteses em redor da capoeira ou algumas questões de poleiro Notas: Legendas das fotos Anexos: Criações e voltas das galinhas – Carlos Augusto Ribeiro Antologia de contos tradicionais N.º 1 - Pobre generosa N.º 2 - Jesus mendigo N.º 3 - Filha e enteada N.º 4 - Mulher fastienta N.º 5 - O serrobio da praia N.º 6 - Fastio N.º 7 - Nem uma nem duas N.º 8 - O jantar do senhor prior N.º 9 - A galinha N.º 10 - O duque doce de laranja N.º 11 - A bela princesa N.º 12 - Ovos cozidos não dão pintos N.º 13 - O preço dos ovos N.º 14 - A casa do Gonçalo N.º 15 - A raposa e as galinhas N.º 16 - A raposa e o galo N.º 17 - A raposa com o galo N.º 18 - A gata borralheira N.º 19 - O livro que dava pão N.º 20 - A galinha e o galo N.º 21 - A morte da lebre N.º 22 - O senhor do galo N.º 23 - A casa dos ladrões N.º 24 - A aranha N.º 25 - A noiva com 114 anos! N.º 26 - «Isso é que era bom!» N.º 27 - O pito-suro N.º 28 - Um galo extraordinário N.º 29 - O pinto borrachudo N.º 30 - O pinto calçudo |


