Ao cabo de cinco anos sem discos, Amélia Muge apresenta-nos Não Sou Daqui, novo álbum de originais e o primeiro de uma trilogia cujos capítulos seguintes "estarão ligados, respectivamente, à música de tradição europeia e às relações entre a música e a tecnologia". Gravado no início de 2006, o disco acabaria por ser lançado já em 2007, facto que se prende com os conhecidos problemas de edição, em Portugal, de música que se situa fora do 'mainstream' comercial. A este respeito, a cantora aproveita para dizer: «Uma pausa discográfica pode ter a ver com falta de trabalho. No meu caso não foi isso que aconteceu. Não preciso dizer mais nada. Editaria mais rápido se fizesse outro tipo de música. Posso deixar para trás "uma carreira" mas não estas canções e tudo o que nelas está e que é muito mais do que música. É com estes projectos que eu quero estar, mesmo que esta escolha me obrigue a estar tanto tempo sem editar.» (entrevista a Tiago Gonçalves, in BodySpace
, 24.04.2007).
Não Sou Daqui, segundo as palavras da própria Amélia Muge, «interroga a canção, como ideia, não como estilo ou género musical concreto. Desafia-a, como um possível "lugar de todos"». E pormenoriza: «Parti de uma ideia de canção quase estereotipada, uma coisa que liga texto e som, numa estrutura de estrofes, refrão, etc., para depois interrogar os espaços do texto, das passagens dos territórios do real aos espaços da mente e as próprias estruturas. Isso levou-me a reflectir sobre como surge a canção nos meus discos anteriores... No fundo, o que percebi ao fazer este trabalho é que a identidade das canções é como a identidade das pessoas. É uma permanente mudança entre o ser e o estar, entre aquilo que se exclui e aquilo que se apropria como fazendo parte dessa identidade.» (entrevista a Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Y", 02.02.2007).
Não Sou Daqui é constituído inteiramente por composições de Amélia Muge para poemas seus e ainda de Hélia Correia, António Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio Lisboa. À pergunta "a escolha dos poemas foi natural?", a compositora responde: «Tão natural como a minha sede. E a deles (poemas), de se encontrarem comigo neste espaço. Os poetas não vêm por arrasto; têm temáticas recorrentes, e eu fiz questão de incluir no disco excertos de outros poemas ou textos destes poetas onde isto se percebe. No fundo, não sou eu quem escolhe os poemas que vão surgindo à volta da ideia central dos discos. Eu vou compondo sem pensar nos discos e vou alimentando uma espécie de arquivo de ideias-canção. Depois, são as ideias de percurso que as convocam. E com as canções os poemas. E com os poemas, os poetas. (entrevista a Tiago Gonçalves, in
BodySpace,
24.04.2007). A respeito de um desses poetas, António Ramos Rosa, representado no disco com dois poemas, Amélia Muge faz questão de afirmar: «Para mim tem sido uma leitura constante, de há muitos anos. Tem-me ajudado a compreender as questões do lugar, da identidade, da ausência de referências. E até a clarificar o que é a poesia. Porque a poesia ou me serve para ajudar a pensar ou ponho-a rapidamente de lado. E no Ramos Rosa, como aconteceu com o Grabato Dias e outros, além da arte do uso da palavra, há também a criação de um espaço simultaneamente artístico, científico e técnico. É uma hibridez que nos ajuda, sem que seja preciso tirar um curso de literatura para entrarmos nesse mundo.» E acrescenta: «A poesia continua a ser, para mim, um grande mistério. Sei dizer o que não é: não é ter rimas no fim das frases, não é ter imagens bonitas. É um lugar de lugares ou, se quisermos, um não-lugar cuja acessibilidade não compreendo bem. Para mim, um grande poeta tem várias coisas reunidas que permitem cantá-lo. Mas conjugar uma sonoridade com um poema ainda é uma coisa tão complicada quanto desafiadora». (entrevista a Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Y", 02.02.2007).
Além dos poemas, o libreto do disco inclui ainda um conjunto de desenhos e esboços caligráficos feitos pela própria compositora: «Todos os meus discos têm presente (de uma maneira menos evidente) a questão da importância da imagem no meu trabalho. Não tanto como componente de ilustração, mas também e, mais uma vez, como matéria de pensamento. Ajudam-me a perceber melhor por onde ando quer no campo das ideias quer no campo das interacções. Neste disco achei importante (e tive a oportunidade) de acentuar esse aspecto.» (entrevista a Tiago Gonçalves, in
BodySpace
, 24.04.2007).
Eis os treze temas que integram
Não Sou Daqui, todos com música de Amélia Muge: "Sete portas tenho em casa" (poema de Hélia Correia), "Arena (à volta da sala)" (poema de Amélia Muge), "Entre o deserto e o deserto" (poema de António Ramos Rosa), "Escutar Caetano" (poema de Amélia Muge), "Fadunchinho" (poema de Hélia Correia), "O que vê o meu olhar" (poema de Amélia Muge), "Na noite mais escura" (poema de António Ramos Rosa), "Não sou daqui, mas..." (poema de Amélia Muge), "O anjo" (poema de Sophia de Mello Breyner Andresen), "Parece Maio" (poema de Amélia Muge), "Quem vier que venha (saudação) " (poema de Amélia Muge), "Transparência" (poema de Eugénio Lisboa) e "Visões do entardecer" (poema de Amélia Muge).
Com direcção musical de António José Martins que também assina os arranjos, em parceria com Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa) e José Manuel David (tema "Visões do entardecer"), a gravação do disco contou com a participação de um vasto elenco de músicos: Amélia Muge (voz de sala, coros e viola braguesa), António José Martins (darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador), Carlos Mil-Homens (cajón), Catarina Anacleto (violoncelo), Cristina A. da Silva (lobulophone de orelha), Filipe Raposo (piano acústico, piano Rhodes e acordeão), José Manuel David (flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala), José Peixoto (guitarra acústica) e Yuri Daniel (contrabaixo e baixo eléctrico). A mistura e masterização estiveram a cargo de António Pinheiro da Silva e António José Martins.
Em recensão crítica ao disco, assim dissertou Nuno Pacheco: «Dos cinco discos que Amélia Muge já gravou a solo, este é o único a preto e branco: capa, libreto, desenhos, poemas, tudo. Mas, tal como nos primeiros discos de José Mário Branco, o mistério que o preto e branco encerra desemboca aqui num arco-íris de cores. "Como uma pintura de sons/ e como se da tela saísse a voz", escreve e canta Amélia a propósito de Caetano Veloso [homenageando o cantor brasileiro e ao mesmo tempo "todos os que me deram a escutar a maravilha da palavra cantada em português de uma forma tão conseguida"], mas as palavras podiam aplicar-se à sua própria obra. Em particular a este disco, que surge como o primeiro de uma trilogia e que é, talvez, do ponto de vista conceptual, o mais ambicioso que até à data gravou. "Não Sou Daqui", ao interrogar a canção como "lugar de lugares", inclui canções belíssimas, ao nível das melhores (e não são poucas) que já escreveu: "Arena (à volta da sala)", por exemplo, ou "Entre o deserto e o deserto", "Na noite mais escura", "O anjo" e "Quem vier que venha (saudação), esta a lembrar "Dia em dia", do primordial "Múgica" (1992). Mas também, num degrau só ligeiramente inferior, "O que vê o meu olhar" (com ecos de Fausto), "Visões do entardecer" e "Transparência". Ou os temas, esses mais ritmados, onde ela mais aborda, por vezes com ironia, as transversalidades geográficas dos sons: "Não sou daqui, mas...", "Sete portas tenho em casa", "Escutar Caetano", "Fadunchinho" e "Parece Maio". Mas estas palavras soariam de outro modo se não fossem os músicos aqui reunidos, que assinam um trabalho de excelência. Ouçam-nos e verão. E ouçam, mais uma vez, essa "voz que canta com as secretas fontes do corpo", como a descreve António Ramos Rosa. Neste seu novo disco, Amélia mostra que é cada vez mais daqui. E de todo o lado.» Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Y", 02.02.2007).
Pela sua pertinência, transcreve-se também a crítica de André Gomes: «O primeiro disco da trilogia anunciada de Amélia Muge é tudo aquilo que o regresso da cantora, afastada destas andanças durante alguns anos, deveria ser: interrogante, desafiante, intenso. Amélia Muge não precisa de muito para fazê-lo e, no entanto, "Não Sou Daqui" é um disco em forma de volta ao mundo. É impressionante a forma como "Sete portas tenho em casa", logo a abrir, se passeia por entre territórios tão distintos, apresentando na perfeição aquilo que o disco apresenta: a exploração da canção como área de fronteira cultural. As movimentações são muitas nessa busca – criando um espaço abrangente e multicultural que confere especial riqueza ao disco. Abrem-se novas portas a cada instante. Num minuto é fado, a seguir é blues; chega a música tradicional portuguesa; um segundo depois é jazz – e, quando a música aponta o caminho, ama-se Caetano num Brasil disfarçado na portugalidade. Tudo isto se desenrola com uma coerência notável, claro está, com o cuidado de quem se documentou antes de partir para uma tarefa deste género – a canção analisada da perspectiva de quem lhe procura fronteiras ou hipóteses de as derrubar. Quando Amélia Muge timidamente esboça sorrisos fugidios em "Arena (à volta da sala)", sabe que a busca está no bom caminho. Em "Fadunchinho" explora-se a quietude da melancolia para logo depois de ensaiar uma curta mas intensa e apaixonante implosão – o factor surpresa ao serviço da criação musical em momento-chave do disco. "Não sou daqui, mas..." é equilíbrio impossível de impressões, doce declaração geográfica de uma cidadã do mundo.
Ambicioso mas realista, complexo mas acessível, "Não Sou Daqui" funciona bem mesmo sem se saber como soam os dois próximos capítulos da esperada trilogia, e abre o apetite – e de que maneira – para o que vem a seguir. Não é exagero dizê-lo:
Não Sou Daqui é um dos discos portugueses mais prementes da década.» (André Gomes, in revista "Blitz Extra", Dezembro de 2007).