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7.
Ssschlep!
Quando a sopa chega à mesa da mais comum das famílias, isso é frequentemente sinónimo de problemas. È que a hora da sopa é a hora da tortura, a hora da recusa ou da birra. Por mais deliciosa, saudável e nutritiva que a sopa seja, os filhos olham-na com desconfiança, horror mesmo, e os momentos de prazer que a saboreariam transformam-se em intermináveis, com silêncios ou barafustas, com austeras reprimendas ou promessas doces, até com histórias e brincadeiras. É no campo aberto por estas últimas que ssschlep, o mais recente livro da infatigável dupla Eugénio Roda (texto) e Gémeo Luís (imagem), traz um importante contributo para a integração da teoria da sopa no filme da vida doméstica. O desafio é, pois, aliciante e os resultados propostos capazes de… mudar o mundo, que o mesmo é dizer, abrir o apetite para a sopa. Ora pois! Ensopada em jogos de palavras, a história começa com a cena familiar da sopa a vir para a mesa. Que sopa era nem importa muito, porque é uma sopa que solicita os sentidos. Conversa entre mãe e filho:
— Eu até quero a sopa, a minha boca é que não quer comê-la! E a sopa fala, claro. Conta de muitas maneiras modos e processos da economia alimentar com a qual tantas vezes nos ralamos. E a sopa também se rala: [...] no tempo em que os vegetais falavam, a sopa era outra conversa, uma conversa animada em que ninguém se lembrava de dizer que não queria comer. Naquele tempo, ninguém ralava a sopa nem se ralava com ela. Mas um dia apareceu a bruxa da varinha mágica com aquele ar de fada e começou a ralar a sopa. Então os vegetais, ralados, deixaram de falar! Depois disto, o filho parece convencido e reclama: — Então falem, seus nabos!, digam alguma coisa, suas cabeças de abóbora!... É esta a primeira consequência desta teoria da sopa, assim brincalhona com palavras e legumes: a sopa é questão de conversa e de histórias, sejam os legumes a contá-las, para quem saboreia ouvi-las, sejam os pais quando dão (ou podem dar dois dedos de conversa):
— Mãe, podias dar-me sopas rápidas de conversar —atalhou o filho— podias dar-me sopa instantânea, que não diz quase nada! Assim eu comia, calado e depressa. Sem esquecer o resto da conversa, isto é, do jantar, que o tempo é o da (re)descoberta do prazer à mesa, com bocas, narizes, olhos e ouvidos bem abertos para todas as conversas! Porque a teoria da sopa é, em verdade, uma teoria da conversa. E fazer com que não seja só conversa passa por cada um reinventar a hora da sopa com as mil e uma histórias possíveis. Na sessão de lançamento de ssschlep, realizada a 18 de Setembro na Cozinha do Cardeal, em Évora (integrada no encontro Representações, organizado pelo IELT e pelo Festival Escrita na Paisagem), em tom de conluio de adultos e à roda de uma sopa da panela, foi isso mesmo que se disse e se provou. Eugénio Roda (pseudónimo de Emilio Remelhe, a.k.a. Elliot Rain) e Gémeo Luís (nome de arte de Luís Mendonça) são autores de uma boa mancheia de livros em colaboração (recordo O moinho de tempo, O piano de cauda, O quê que quem — Notas de rodapé e corrimão, Desventuras completas I e II, Aventuras domiciliárias I, II e III). O quê que quem obteve o Prémio Nacional de Ilustração 2005. Ssschlep é o seu décimo primeiro livro. E abre o apetite! |


