A problemática do ensino da literatura e da cultura no ensino secundário
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No cenário difuso da pós-modernidade e da globalização, que tem vindo a ser assinalado por um conjunto de mudanças sociais, culturais, políticas, ideológicas e económicas de tal forma profundas que se tem alterado (dir-se-ia antes: desfigurado) o rosto e o sistema de valores das sociedades ocidentais, impõe-se pensar um programa formativo escolar dos adolescentes sustentado por um ideal de educação conscientemente delineado para a transmissão/aquisição de uma cultura dos valores e dos afectos através do contacto crítico com a literatura, as artes e a cultura entendidas num sentido vital de valor patrimonial, como matriz fundamental de quem colectivamente somos: historicamente, culturalmente, filosoficamente, ontologicamente. O contexto geral de crise de valores e de referências éticas e culturais exige uma intervenção educativa que deseje e saiba velar pela dimensão formativa dos jovens ao nível da estruturação da sua "identidade" pessoal e da sua capacidade de integração na cultura da sua comunidade, desenvolvendo neles um sentimento de partilha e de pertença a uma cultura que devem conhecer e saber valorizar. Importa pensar-se os fundamentos de uma acção educativa para o novo milénio que, partindo de uma concepção de «cultura» entendida no seu sentido primordial de "aperfeiçoamento ético" do indivíduo (ser de relação com os outros e com a comunidade), consiga verdadeiramente iniciar para uma "arte de viver" de que o modelo das sociedades tradicionais é, a vários títulos, exemplar.

O novo contexto axiológico que assinala os primeiros anos do novo milénio parece exigir uma acção educativa particularmente consciente do processo potencialmente erosivo da "identidade" colectiva das comunidades culturais, nesse cenário difuso em que se jogam, não raro com desequilíbrios, as relações entre as sociedades globalizadas, assim como da perturbação que tende a perturbar, por acção dispersiva de variados e complexos factores, o processo da estruturação da "identidade" pessoal dos indivíduos. A partir da avaliação crítica de um contexto social e cultural que cultiva os valores da efemeridade, do narcisismo e do consumismo materialista, procura-se estabelecer linhas de reflexão e de acção conducentes à modelação de um programa de estudos para o ensino do Português que se constitui, na sua base, como um programa de resistência à leveza e à desordenação dos valores e das referências éticas, estéticas e culturais. Trata-se assim de um programa educativo assente numa matriz identitária que sustenta a comunidade cultural e afectiva de que somos parte. Fundamenta-se nos pilares essenciais do património e da tradição: esta é a base de um projecto de formação cultural de jovens capazes de reunir com espírito crítico um repertório de referências éticas, estéticas e culturais e de atingir um nível de identificação (um sentimento de pertença) com a sua comunidade. O contacto dos alunos com a literatura oral/tradicional/popular constitui, coerentemente, o ponto de partida para um trajecto de contactos críticos e imaginativos com manifestações literárias e artísticas da cultura nacional e para o aperfeiçoamento do seu domínio da língua materna - no plano da escrita como da oralidade.

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Alguns grafismos neste site foram retirados d'A Boneca Palmira, Edições Eterogémeas, e são da autoria de Gémeo Luís.