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Título: Autores: Programas de Investigação:    

Carlos Nogueira

Neste artigo, procuramos demonstrar que Mãe Pobre de Carlos de Oliveira constitui uma importante revolução estética ao nível das relações entre o culto e o popular: entre a poesia de autor, inserida no quadro teórico, ideológico e estético supra-individual do Neo-Realismo, e a poesia popular e tradicional, expressão do activo de pensamentos, sensibilidades, emoções, símbolos e procedimentos literários da comunidade.

Carlos Nogueira

A praga, género do discurso a que o emissor recorre por tradicionalmente se lhe atribuir um poder mágico de destruição de um oponente, é ilegal e marginal, mesmo se é lei que salva quem a enuncia; porque, de acordo com a ortodoxia judaico-cristã, não passa de um texto herético, maldito, cuja natureza ético-moral é fortemente negativa e contrária ao pacifismo da mensagem de Cristo. Máximo de emoção e significado num mínimo de palavras, forma breve que é o sinal de um espaço interior sem fim e de uma necessidade imparável de voz, a praga dá-se como um curto-circuito do pensamento de um sujeito que pratica uma alquimia de palavras para agir sobre o real (que é muitas vezes – e o enunciador sabe disso, consciente ou inconscientemente – o seu próprio mundo visceral).

A Maior Flor do Mundo (José Saramago), A Biblioteca da Avó (Maria do Rosário Pereira) e O Canteiro dos Livros (José Jorge Letria)
Carlos Nogueira

A Biblioteca do Avô (2005), de Maria do Rosário Pedreira, e O Canteiro dos Livros (2007), de José Jorge Letria, são narrativas, dirigidas antes de mais a um público infantil e juvenil, que, como a instância titular desde logo indicia, têm como tema o gosto pelo livro e pela leitura. A Maior Flor do Mundo (2001), de José Saramago, também trata a questão do livro – das “histórias para crianças”1 – mas o que pontifica no título é um dos centros (o motivo) da narrativa: a flor, “caída” e “murcha”, que o “herói menino” encontrou no cimo de uma “inóspita colina redonda”, e, de imediato, por ser menino “especial de história”, quis salvar.

Domingos Morais
Fevereiro de 2009

Almeida Garrett, com o seu Cancioneiro e Romanceiro Geral (1843 e 1851), terá sido o primeiro colector a reunir em publicação as jóias da tradição popular. Pelo sim, pelo não, ajeitou os textos e corrigiu particularismos regionais da língua. Antes dele, o Popular aparece em romances, ensaios, peças de teatro, poesias e músicas de autores que desde a Idade Média nos ajudaram a espreitar as culturas campesinas de que se serviram para as suas obras como os mestres de cozinha vão ao campo buscar sabores e aromas que lhes agradam e servem os seus propósitos.

Paulo Alexandre Pereira

Em aviso liminar, incluído no prólogo que precede a única colectânea medieval conservada de fábulas em língua portuguesa, esclarece o tradutor do quatrocentista do
Livro de Exopo que o autor

«(...) assemelha este sseu livro a hũu orto no quall estam flores e fruytos. Pellas frores sse emtemdem as estorias e pello fruyto sse emtemde a semtença da estoria. (...) Ainda compara este sseu livro aa noz, que há dura casca, e aos pinhoões, que demtro teem ascomdido o meolo, que he ssaborido. Assy este livro tem em ssy escondido muitas notavees semtenças».

(Calado, 1994: 38)

Ana Paiva Morais

Puisque c’est de La Fontaine qu’il s’agit, et que, pourtant, je me propose de remonter très en arrière jusqu’au Moyen Age, je voudrais commencer par une fable, une fable d’origine, pourrait-on dire:

 
Supposez qu’une femme enceinte soit jetée en prison, qu’elle y mette au monde un enfant, que l’enfant né en prison y soit nourri et grandisse; si la mère qui l’a enfanté venait à lui parler du soleil, de la lune, des étoiles, des montagnes et des plaines, des oiseaux qui volent, des chevaux de course, lui pourtant, comme il est né et a été élevé en prison, ne connaît que les ténèbres de la prison; il entend dire à la vérité que ces choses existent, mais il doute qu’elles existent réellement parce qu’il ne les connaît pas d’expérience. Ainsi de même les hommes nés dans cette présente cécité de leur exil, quand ils entendent dire qu’existent les réalités sublimes et invisibles, doutent qu’elles existent réellement, parce qu’ils connaissent seulement ces choses visibles toutes dernières au milieu desquelles ils sont nés. De la vient que le Fils unique du Père […] a envoyé son Saint-Esprit à nos coeurs, pour que, vivifiés par lui, nous croyons ce que nous ne pouvons encore connaître d’expérience.
 
C’est avec cet exemple que Grégoire le Grand introduit, au VIe siècle, la notion très particulière que le récit fabuleux a acquis au Moyen Age.

Paula Morgado Sande
Novembro de 2007

Vivemos tempos propícios ao questionamento crítico das noções – por tradição elitistas e cristalizadas – de «cultura escolar», de «cânone pedagógico» e de «educação literária» dos jovens. A relativamente recente criação de novos programas escolares para a leccionação da disciplina de Português para o nível de estudos secundários reflecte o espírito do novo tempo: o conjunto desses programas revela-se de facto um produto natural do ambiente epistemológico e ontológico que define a sensibilidade pós-moderna.

 
Os novos programas reflectem uma atitude pedagógica, ideológica e cultural inusitadamente aberta relativamente à noção, por tradição muito conservadora, de «cultura escolar». Trata-se de uma proposta realmente inovadora de “deselitização” do cânone pedagógico. Estes programas estão todavia, de forma muito contraditória, ainda profundamente comprometidos com o ideal academizante de «cultura literária consagrada» e «dominante». Revelam uma postura de abertura cultural, mas estão cativos de uma visão academizante da literatura.
 
Adoptando-se uma noção dinâmica de cultura, de literatura e de tradição, propõe-se um programa de formação do leitor imaginativo, crítico e afectivo, que se sustenta na defesa de um processo de “deselitização” do cânone pedagógico, definitivamente liberto do fundamentalismo do textocentrismo (da cultura escrita) e da ideologia aristocrática e exclusivista da canonização literária.

Duas notas sobre a "fala com qualidades" numa era de empobrecimento da comunicação humana e de declínio da oralidade.
Paula Morgado Sande

Não é difícil encontrar em artigos e em trabalhos académicos definições de provérbio que permitam chegar ao estabelecimento de uma lista mais ou menos consensual de adjectivos e de expressões qualificativas. Gostaria de escolher uma definição entre tantas que existem, proposta, não por um académico, mas por um escritor que, por várias razões que neste momento não vêm ao caso, sempre esteve muito identificado com essa cultura oral e tradicional que veio produzindo, e sempre estimou, essas formas lapidares de expressão que são os provérbios. No romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago apresenta-os como sendo «fórmulas de sabedoria condensadas, para uso imediato e efeito rápido, como os purgantes». Com esta definição económica e muito eficaz o escritor faz alusão a algumas características essenciais do provérbio: a sua economia verbal, a sua flexibilidade de uso contextual (apesar da sua forma rígida) e o seu poder e eficácia enquanto tradução de uma verdade (não obrigatoriamente de valor universal) ou expressão de uma ideia, de uma experiência, de um saber, de uma norma, de um conselho.

(pontos de partida; algumas perspectivas teóricas e metodologias)
Paula Morgado Sande
Outubro de 2007

O edifício teórico que sustenta o IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa - é, por vocação, eminentemente multidisciplinar. O seu campo de estudos, a que podemos chamar literatura tradicional/popular de transmissão oral, etnoliteratura ou, cobrindo uma área mais vasta de investigação, património dos textos orais e das tradições populares, inclui fundacionalmente um trabalho de recolha e de investigação de textos, de práticas e de objectos que permitem a compreensão de visões do mundo. Recolhendo e lendo os textos produzidos, preservados e estimados no interior da comunidade afectiva e cultural - uma comunidade animada pela memória e que, por amor de si própria, os conserva e transmite como legado às novas gerações - o investigador pesquisa, apreende e esclarece modos de relação do humano (o ser individual e o colectivo; pessoas, grupos sociais e comunidades) com o meio físico e a realidade social e cultural entendida como lugar de partilha de crenças, de experiências e de valores. Ou seja, o investigador intenta perceber e descrever os modos como os indivíduos e os grupos sociais percepcionam o mundo e habitam os lugares e de que formas traduzem, através do praticar - falar, contar, recontar, dançar, ritualizar, representar… - essas visões e essas experiências do mundo.

Uma abordagem sistémica da literatura tradicional
Ana Salazar Braga
18 de Fevereiro de 2007

Desde sempre me espantou a energia, a vitalidade e a juventude positiva do espírito da Ana Paula Guimarães (APG), que indubitavelmente constituem a sua "imagem de marca" nos trabalhos que tem vindo a orientar no Instituto de Estudos da Literatura Tradicional (IELT).

E já lá diz a tradição:

"As conversas são como as cerejas". Começa-se por uma e logo se segue outra e outra, num rosário infindável que só se esgota quando o fim do cesto é encontrado. Foi nessas conversas soltas e informais, no quotidiano das voltas da vida, que a Sistémica a pouco e pouco se aproximou da Literatura Tradicional.

Dessas conversas, tidas no último ano, nasceu uma ideia, qual fio condutor, que em nós simples, duplos e complexos tem vindo a traduzir um desenho teórico que, se elementar no presente, qui ça no futuro poderá conduzir a uma trama bem mais complexa.

É que o fim do cesto ainda não se avista...

Tendências da literatura infantil contemporânea
Maria de Lourdes Soares (docente na Universidade do Rio de Janeiro)
2 de Janeiro de 2007

«Contar histórias é uma arte milenar, presente em diferentes culturas. Embora em textos escritos antigos encontrem-se relatos e fragmentos da tradição oral, a preocupação com o registro escrito e a publicação dos contos populares é de certo modo recente. O sistema de transmissão dos contos não se fez uniformemente, assim como o processo de colecta e fixação, que variou de acordo com as diferentes motivações dos colectores e concepções de fidelidade às fontes. A questão não é simples e põe em debate o estatuto da "oratura" (ou "oralitura") em relação à literatura escrita, o jogo da subjectividade e da objectividade, as relações entre cultura erudita e popular, etc.»

José Rodrigues dos Santos
Outubro de 2006

«Lancei umas anotações rápidas no computador em Fevereiro de 2006, enquanto tinha na memória as impressões e as ideias surgidas durante a escuta da gravação da emissão TSF / IELT sobre literaturas e músicas tradicionais. Durante essa sessão...»

Anabela Almeida Gonçalves
10 de Outubro de 2005

«Como a maioria dos assuntos que despertam séria curiosidade e irreprimível paixão em quem os estuda ou em quem se interessa minimamente por eles, o caso da literatura tradicional reveste-se de alguma complexidade a nível de nomenclatura... »

Ana de Sousa Gil
16 de Março de 2005

«A grande aposta dos que se dedicam ao estudo da cultura tradicional penso que é o de reunir não conchas avulsas de um mar ausente mas sinais vivos de uma realidade desmesurada.» - Teresa Rita Lopes


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Algumas ilustrações neste site da autoria de Danuta Wojciechowska.