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História do seu desenvolvimento
Humberto Nelson Ferrão e Nuno Domingos
Março
Um texto da autoria dos Drs. Nuno Domingos e Humberto Nelson Ferrão sobre a evolução social de uma comunidade Avieira, mais propriamente da aldeia das Caneiras, em Santarém. Trata-se da síntese de um estudo que os autores fizeram naquela aldeia na década de 80 do século XX e que poderemos designar com o título de “pescadores Avieiros e searas de tomate”. Segundo os autores, o objectivo da sua investigação teve como motivação procurar compreender entre outros aspectos as razões para o facto de os Avieiros se terem tornado seareiros. |
"Vindos de Vieira de Leiria à procura de sustento, foram subindo o rio / vivendo nos barcos, até que..."
Mário Costa
Fevereiro
"...galgaram / as margens. São uma / cultura única / no Mundo. São conhecidos / como os ciganos do rio". «Deixa ir assim, vai devagar para a rede não prender. Leva o barco mais para aquele lado; isso, assim está bom.» Quem dita as ordens é Mário João Petinga, de 44 anos, pescador, que, de pé na popa da sua bateira, vai lançando as redes ao Tejo. Aos remos, na proa, Luís Cosme, de 50 anos, manobra com agilidade, respeitando as ordens do «lançador». Os remos entram e saem da água em ritmo compassado e vigoroso, enquanto a pequena embarcação vai descrevendo um arco perfeito, como se traçado por um compasso. |
Um tocador de concertina nascido à beira do Tejo
Ricardo Hipólito
Janeiro
Da comunidade piscatória Alpiarcense, que em tempos assentou em vários locais (chegaram a ser cinco) das margens da vala de Alpiarça e do Tejo, e que tenhamos conhecimento, só um jovem seguiu os seus estudos para além da 4ª classe, concluindo o curso numa escola técnica. Pais e filhos dedicavam-se à pesca até que, em meados da década de 60 (ou pouco antes), começou o abandono em massa dos mais jovens. Procuraram outras artes, outros ofícios. A escassez de peixe foi uma das razões, mas não só. Houve quem, também procurando esses outros ofícios, não tivesse reprimido outras sensibilidades "estranhas" naqueles meios e que tivesse tido uns pais que, em vez de reagirem mal, “temos aqui mariquices ou quê?", incentivaram o filho no seu sonho: aprender e praticar música. Eis a história, já publicada em 2008 no jornal "Voz de Alpiarça" e agora recuperada para este Boletim, de um Alpiarcense - filho de pescadores do Tejo - tocador de concertina. | «Habitar sob uma segunda pele»
Paulo Mendonça
Fevereiro
Esta Folha Informativa trata da evolução do contínuo cultural da cultura Avieira no caso particular da construção das casas dos pescadores: Palheiros, tal como são designadas na região da Gândara e Palhotas ou Barracas, tal como são designadas na borda-d’água. O tema agora apresentado é o primeiro de uma série que pretende revelar a evolução e a caracterização das casas dos pescadores Avieiros, como sendo o resultado de uma evolução histórica e cultural dos Palheiros tradicionais da costa ocidental Portuguesa, logo numa perspectiva nacional e sistémica. O texto é do Doutor Paulo Mendonça, Arquitecto e professor da Universidade do Minho, que passou a acompanhar o projecto a partir da viagem de estudo à Praia de Mira, no dia 30 de Janeiro de 2010. |
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(vários autores)
Dezembro de 2009
Contributo dos alunos da escola Básica e Secundária de Cunha Rivara (Arraiolos) para dois projectos do IELT – Instituto e Estudos de Literatura Tradicional (Dezembro de 2009): A LUA, A ÁGUA E AS TROVOADAS |
Jorge Gambóias
Janeiro
«A primeira frase desta Folha Informativa serve apenas para alertar que este texto foi escrito na primeira pessoa do singular. Porquê? Porque o melhor que pode acontecer aos casais avieiros é terem quem os (d)escreva na primeira pessoa do singular. E porquê? Porque a ocupação humana, mais do que permitir observá-los, é o factor que tem preservado os casais, em evoluções adaptadas a sucessivos contextos.» |
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Francesco Benozzo
Dezembro de 2009
«Questi due volumetti delle edizioni Apenas di Lisbona sono preziosi per diversi motivi. Il principale, per quanto mi riguarda, sta nell’utilizzazione della Teoria della Continuità Paleolitca (PCT = Paleolithic Continuity Theory) come strumento di indagine di una tradizione folklorica-letteraria. A mia conoscenza, l’unico tentativo precedente in questa direzione applicato alle letterature cosiddette “volgari” era il mio La tradizione smarrita. Le origini non scritte delle letterature romanze (Roma, Viella, 2007), rispetto al quale, tuttavia, la ricerca di Fernanda Frazão e Gabriela Morais, si distingue per una ancora più marcata aderenza ai dati archeologici e alla loro periodizzazione.» |
Ana Isabel Queiroz
2 de Dezembro de 2009
Estimulando a integração da linguagem e dos conteúdos da Literatura e das Ciências Naturais, este artigo constitui uma nova leitura de “Die Verwandlung” (1915, Franz Kafka). Pretende-se identificar a personagem principal depois da sua transformação, analisando o texto à luz do conceito biológico de metamorfose, e dos procedimentos da taxonomia e classificação animal. Discute-se brevemente a controversa conceptual entre “animalidade” e “humanidade”. Apresenta-se ainda uma descrição técnica, similar às usadas para as espécies novas, que estabelece o lugar da personagem no bestiário da literatura universal do século XX. |
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A última Avieira da vala de Alpiarça
Ricardo Hipólito
2009
«Um dia “convidei-me” e fui com Manuel Fernandes recolher as redes na vala de Alpiarça. Era Abril, o tempo primaveril mas, no barco, entre salgueiros, o sol já tinha características de verão. A pesca naquele dia, como vinha acontecendo quase todos os dias, desde há muito, resumiu-se a uns poucos lagostins de água doce e quase nada mais. Lá íamos a conversar quando, mais para diante, numa curva do rio se avista a proa de um barco e, à vara, qual é o meu espanto, assim me pareceu, uma mulher.» |
Carlos Nogueira
Setembro de 2009
Nesta comunicação reflecte-se sobre um dos temas mais explorados na literatura para a infância e a juventude dos nossos dias: a relação, positiva e negativa, entre os seres humanos e a natureza. Subjaz às obras em análise, que convidam o leitor a uma reflexão séria sobre a questão da vida na Terra e o seu futuro incerto, a ideia de que não é possível construir uma Humanidade total sem uma articulação efectiva entre o Homem, os elementos da Natureza, em particular a árvore, e uma biologia e geografia da Palavra. |
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Carlos Nogueira
Junho de 2009
Neste artigo pretende-se mostrar que a narrativa A Verdadeira História dos Pássaros, de Valter Hugo Mãe, articula consciência mítica, leis da natureza e logos poiético: o vento, a personagem operadora da acção, consciente de si e do mundo, desencadeia a evolução de duas espécies genericamente designadas de “galinholas” e “passarocos”; e o texto, representação parcial do interminável e sublime poema que é a Natureza, encerra em si uma ideia de progresso ecológico e evolução cultural do leitor. | Acerca do livro «Orações. Património Oral do Concelho de Loulé»
Carlos Nogueira
Maio de 2009
O concelho de Loulé, a partir do trabalho diligente de três estudiosas que souberam escutar a sabedoria de uma população sénior (maior ou jubilada, como com toda a propriedade humanista dizem os nossos vizinhos espanhóis), figura hoje na geografia das recolhas de literatura oral com categorizadas colecções. O terceiro volume do Património Oral do Concelho de Loulé, o das Orações (Loulé, Câmara Municipal de Loulé, 2008), que reúne mais de três centenas de versões inéditas, a que se acrescentam as publicadas nos dois volumes da obra Memória Tradicional de Vale Judeu, num total de 477 textos, é – e não custa prever que o será por muito tempo – a referência para esta especificidade textual: referência pelo número de textos, pela arquitectura taxionómica e pelas análises que Maria Aliete Galhoz propõe e que com certeza servirão de estímulo a outras recolhas, edições e estudos, pelo método do trabalho extensivo de campo realizado e explicado por Idália Farinho Custódio, pela, enfim, articulação entre todas as fases do processo sensível de coleccionação a partir da tradição oral, de organização e de hermenêutica. Isabel Cardigos, responsável pela classificação e pelas notas do volume de Contos, participa com um estudo muito informado e perspicaz sobre “As Tabuinhas de Moisés”; longo texto de protecção cujo poder que o orante lhe atribui implica uma recitação segura e sem erros, esta oração situa-nos bem no interior do imemorial e difuso horizonte antropológico da linguagem verbal integrada em rituais mágico-religiosos (ou em si mesma configuradora do ritual com que se espera desencadear uma resposta do sobrenatural). |
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Germano Afonso
Com astronomia própria, índios brasileiros definiam o tempo da colheita, a contagem de dias, meses e anos, a duração das marés, a chegada das chuvas. Desenhavam no céu histórias de mitos, lendas e seus códigos morais, fazendo do firmamento esteio de seu cotidiano. |
A etnoastronomia dos africanos trazidos como escravos para o Brasil se misturou com a dos nativos do nosso país constituindo novas formas de saber
Germano Afonso
2009
Desde os tempos mais antigos, os habitantes da África e os indígenas que habitavam o Brasil olhavam para o céu e ficavam maravilhados. Os africanos e os indígenas perceberam que os fenômenos celestes estavam relacionados com os da terra, em uma harmoniosa sincronicidade. Esse conhecimento tradicional do Cosmos envolvia as observações dos movimentos dos corpos celestes, a seqüência das estações do ano e o comportamento das plantas e dos animais. A visibilidade de certas estrelas e constelações marcava épocas significativas do ano. Até a conduta correta da vida humana estava ligada ao contexto sazonal dos fenômenos naturais. Juntas, estrelas e espécies animal e vegetal, informavam ao homem sobre a ordem e a unidade do Cosmos, fornecendo uma bela visão do mundo, suficiente para a sobrevivência em grupos. Tentando explicar suas observações, criaram diversos mitos cosmogônicos. |
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Xosé Luis Forneiro
1 de Abril de 2009
Preocupa, nos últimos tempos, o futuro da literatura, fundamentalmente a leitura como actividade e a sobrevivência do livro impresso como objecto. Assi, alguns consideram que o mundo actual é incompatível com a cultura livresca em que se alicerça o saber de Ocidente desde a Idade Moderna, no entanto, outras vozes, como a do ex-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, Dario Villanueva, som mais optimistas, uma vez que "os livros electrónicos ou portalivros" parecem garantir a sobrevivência do livro "tradicional" num outro suporte, além do facto de nunca se ter lido e escrito tanto como nos nossos dias. |
Carlos Nogueira (resumo em espanhol por Raúl Eduardo González
La riqueza y la diversidad de los textos poéticos infantiles y juveniles (entendidos aquí como aquellos que son producidos, transmitidos y actualizados por niños) exigen abordajes rigurosos y atentos (de naturaleza antropológica, psico-sociológica, psicoanalítica, literaria, lingüística, musical, etc.), con vistas al conocimiento de sus múltiples zonas obscuras. |
Os Clássicos na Literatura para a Infância e a Juventude
Carlos Nogueira
A publicação, em 2008, de uma “Colecção de clássicos da literatura portuguesa contados aos mais jovens”, organizada em duas séries de doze títulos cada, suscitou algum debate entre estudiosos da literatura, críticos literários, professores, especialistas de diversas áreas e o público em geral. Fizeram-se ouvir sobretudo aqueles que não concordam com a iniciativa das Edições Quasi, que contou com o apoio do Millennium BCP e do semanário Sol. |
Carlos Nogueira
Neste artigo, procuramos demonstrar que Mãe Pobre de Carlos de Oliveira constitui uma importante revolução estética ao nível das relações entre o culto e o popular: entre a poesia de autor, inserida no quadro teórico, ideológico e estético supra-individual do Neo-Realismo, e a poesia popular e tradicional, expressão do activo de pensamentos, sensibilidades, emoções, símbolos e procedimentos literários da comunidade. |
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Carlos Nogueira
A praga, género do discurso a que o emissor recorre por tradicionalmente se lhe atribuir um poder mágico de destruição de um oponente, é ilegal e marginal, mesmo se é lei que salva quem a enuncia; porque, de acordo com a ortodoxia judaico-cristã, não passa de um texto herético, maldito, cuja natureza ético-moral é fortemente negativa e contrária ao pacifismo da mensagem de Cristo. Máximo de emoção e significado num mínimo de palavras, forma breve que é o sinal de um espaço interior sem fim e de uma necessidade imparável de voz, a praga dá-se como um curto-circuito do pensamento de um sujeito que pratica uma alquimia de palavras para agir sobre o real (que é muitas vezes – e o enunciador sabe disso, consciente ou inconscientemente – o seu próprio mundo visceral). | A Maior Flor do Mundo (José Saramago), A Biblioteca da Avó (Maria do Rosário Pereira) e O Canteiro dos Livros (José Jorge Letria)
Carlos Nogueira
A Biblioteca do Avô (2005), de Maria do Rosário Pedreira, e O Canteiro dos Livros (2007), de José Jorge Letria, são narrativas, dirigidas antes de mais a um público infantil e juvenil, que, como a instância titular desde logo indicia, têm como tema o gosto pelo livro e pela leitura. A Maior Flor do Mundo (2001), de José Saramago, também trata a questão do livro – das “histórias para crianças”1 – mas o que pontifica no título é um dos centros (o motivo) da narrativa: a flor, “caída” e “murcha”, que o “herói menino” encontrou no cimo de uma “inóspita colina redonda”, e, de imediato, por ser menino “especial de história”, quis salvar. |


