Livros com Sítio

Retalhos da Vida do Cadaval

Teresa Perdigão

Novembro 2011

SIOPA, Maria Alice – RETALHOS DA VIDA DO CADAVAL, Câmara Municipal do Cadaval, 2004, 20 páginas.

 

Retalhos da Vida do Cadaval resulta de uma conferência proferida pela autora em 2003, no dia do feriado municipal.

Leio como se a ouvisse desfiando memórias, tentando “reviver figuras e factos do passado”, como diz, logo no início. Fala do que ouviu e do que conheceu, registando nomes de pessoas que lhe deixaram recordações das suas vivências e que desde a sua chegada ao Cadaval, a guiaram na descoberta da vila e dos seus costumes. Referindo-se ao sogro e à sua mãe, seus primeiros guias, adianta: “Eles falavam-me das pessoas que tinham conhecido, contavam-me factos da vida delas, factos que mais os tinham impressionado, falavam-me de usos, costumes, histórias engraçadas, casos dramáticos, da vida e da morte das pessoas que tinham conhecido na sua juventude”. Com eles aprendeu o quotidiano, com outros, como com o arqueólogo Leonel Ribeiro, aprendeu sobre a História do concelho.

O seu interesse e curiosidade, bem como as suas vivências e a sua vida profissional, como professora, terão contribuído para que Maria Alice Siopa se tenha dedicado com tanto fervor à terra que adoptou desde 1944.

Este caderninho é um bom exemplo da importância da transmissão do testemunho oral, pois ele remete-nos para as memórias que normalmente não são escritas e que tanto contribuem para a ligação à terra onde se vive ou, com muita frequência, contribuem para trabalhos de investigação. Aqui temos, desde o início do século XX, uma abordagem às feiras e mercados, aos transportes, à importância local do almocreve que se deslocava a Lisboa, como rapazito de recados, a adquirir os bens que faltavam aos comerciantes e que voltava quatro dias depois, com o “carroção cheio das encomendas pedidas”. Fala do velho carro do correio, propriedade da família Prieto, que fazia duas viagens por dia ao Bombarral e da primeira camioneta de carga que chegou na década de 30 e assustou a população como se fosse um “monstro roncador”. Aborda o comércio, o ensino e as actividades lúdicas, com especial relevo para o teatro, para a serração da velha, as festas, os piqueniques e passeios às quintas e, como não podia deixar de ser, em terra de vinhas e vinho, à Adiafa.

Para além da enumeração ou do levantamento deste ou daquele facto, Retalhos da Vida do Cadaval tem a subtileza de apresentar dados, quase de carácter doméstico, que ajudam a perceber o funcionamento da comunidade. Fixo-me neste: “era desprestigiante para uma senhora ir às compras, ao mercado. Só as serviçais iam ver o que se estava vendendo, depois diziam às patroas, e estas decidiam então, o que a serviçal devia ir comprar” (p.8).

E com a mesma subtileza denuncia: “Meu sogro, Graciano Siopa, encontrou (…) uma moeda de ouro, com a efígie do imperador romano Diocleciano. Foi doada, a dita moeda ao Museu do Cadaval, que existiu numa sala dos antigos Paços do Concelho, que foi extinto para ser criada a Tesouraria da Câmara e cujo espólio desapareceu”. Mais adiante acrescenta: “uma parte do espólio desse Museu foi encontrada numa lixeira do hospital e uma vez recuperada, foi levada para Lisboa pelo Dr. Leonel Ribeiro. Das peças mais importantes do dito Museu desconhecia-se o paradeiro”.Não é com menos acutilância que acusa Eugénio Pereira, “deputado nas Côrtes, e grande proprietário de vastos terrenos em volta da vila” como tendo sido um dos responsáveis por o caminho de ferro não passar pelo Cadaval, para assim, não cortar as suas terras e ainda, de ter sido ele o “mandatário do crime de assassinato do médico Sr. Dr. Rocha” para o afastar de se candidatar às Côrtes.

O título tem todo o sentido. Trata-se de retalhos, mas de retalhos reunidos por quem conhece os tecidos de onde os retira e o sítio onde os quer colocar, de novo, fazendo história.

As fotos estão documentadas, sempre que possível, com indicação das datas e do seu autor ou do seu proprietário.

Acrescentaria, não apenas como reparo, mas sobretudo como dúvida: Chamava-se Serração da Velha ao que se fazia no Cadaval, no mês de Janeiro, nos finais dos anos 40? Os rapazes cantavam pelas ruas, fazendo grande barulho com chocalhos, tachos e serrotes e “paravam em frente às casas daquelas que haviam sido avós naquele ano (…) e serravam a velha, ou seja cantavam versos de improviso em que aludiam aos netos da pessoa”. Penso haver uma confusão e interferência de memórias entre o cantar dos reis e a serração da velha que, segundo o que sei, só se faz na Quaresma. Mas… cada roca com o seu fuso e cada terra com o seu uso. Porque não?

Por esta razão, transcrevo os versos que uma cadavalense passou à autora e que ouviu cantar, dedicada ao seu avô:
“Ó senhor João Prieto
U, u, u, u, u
A quem deixa os seus bens?
U, u, u, u, u
É à sua netinha Aida
U, u, u, u, u
Que é a melhorzinha que tem
U, u, u, u, u
Tisso, tisso, u
Venha a velha p’ró cortiço
Mete um ramo de loureiro, no cu
E dá um estouro”

Uma nota final para a preocupação que teve a autora em terminar, exaltando o que ela considera os grandes heróis da sua terra (adoptiva) – os trabalhadores rurais, “esses que tiveram rosto, mas hoje dormem no pó da terra, esquecidos e injustiçados e desconhecidos (…)”.

Teresa Perdigão

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