A modernização da sociedade portuguesa, num contexto de globalização, fez emergir, nos últimos 30 anos, uma nova sociedade, a qual parece apressada em esquecer as suas raízes rurais e "atrasadas".
Assim como as novas estruturas familiares parecem remeter os seus velhos para a negligência e o abandono em armazéns eufemisticamente chamados de "Lares", também se apagam as vicissitudes do período da infância das actuais gerações adultas, das que conheceram a radical transformação da produção e do hábitos de consumo da sociedade portuguesa. Ora um passado de abuso e exploração precoce da infância tem de deixar marcas traumáticas nos adultos de hoje, e não se pode simplesmente tentar esquecê-lo. É verdade que essa infância e essa vida que foi a dos avós dos jovens actuais, tem para estes tanto significado quanto a vida nas sociedades neolíticas, no processo de desmemoriação do passado que parece caracterizar os promotores da modernização-a-todo-o-custo da actualidade. Essa vida, se já não existe nos novos hábitos globalizadores e normalizadores, sobrevive nas memórias dos idosos actuais, nas recolhas etnográficas das condições materiais de vida, ou nos projectos de recuperação das vivências tradicionais, enquanto factores de mobilização para a redescoberta dos traços identitários que fazem dos portugueses aquilo que eles são.
A infância esmagadoramente pobre e rural do passado, é como que o reverso da moeda da euforia "desenvolvimentista" e consumista do presente. É no sentido de a recuperar, enquanto quadro mental ainda actuante –mesmo que secundarizado e olvidado- que é importante trazer à luz os seus traços, que são, afinal, componente importante da identidade colectiva dos portugueses.
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